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Pagliacci e uma cena antológica do cinema

Ontem eu estava assistindo uma cena de um famoso filme americano em que um dos protagonistas estava assistindo a opera Pagliacci de Ruggero Leoncavallo. Ao mesmo tempo que soava a música apareciam imagens de eventos paralelos. Foi ali que a genialidade do diretor foi revelada.

Já tinha visto esse filme várias vezes e nunca tinha percebido aquilo. O filme é Os Intocáveis de 1987, dirigido por Brian De Palma e com gente pesada no elenco como por exemplo Robert De Niro como Al Capone e Sean Connery. Ainda a trilha sonora é de Enio Morricone. Sim, este é o filme onde Sean Connery diz a famosa frase “Bringing a knife to a gun fight”.

Voltando ao tema, neste filme existe uma cena fantástica que acontece enquanto Al Capone (De Niro) assiste à opera Pagliacci. Exatamente estava na Aria Vesti La Giubba (Vista a Fantasia).

Mas primeiro vamos ver de que se trata a opera Pagliacci.

Sobre a opera

Posta em cena por primeira vez em 1892 é a única opera de Leoncavallo que ainda é encenada hoje em dia. De forte conteúdo emocional e trágico a opera retrata a Canio, um palhaço, que representa uma peça satírica junto a sua esposa, ele basicamente faz as pessoas rirem. A esposa Nedda o engana com outra pessoa Silvio e Canio é avisado disso e decide aparecer num dos encontros da esposa. O amante foge e Nedda grita “Eu sempre serei sua“. Canio ameaça a esposa com uma faca e demanda saber o nome do amante. Ela se recusa e ele insiste. Mas, é a hora do próximo ato deles e então partem para se preparar.

É aqui que Canio canta Vesti La Giubba. Se coloca no lugar de Canio por um minuto. Você acabou de saber que a tua esposa tem um amante e ao mesmo tempo você precisa entrar em cena em poucos minutos para fazer rir as pessoas. Toda a ária é trágica e terrivelmente poderosa. Canio canta: “Ria, palhaço, sobre o teu amor destroçado
Ria da dor que te envenena o coração!

No segundo ato eles estão interpretando a peça satírica que ironicamente é praticamente o mesmo drama que estão vivendo. Pagliaccio (Canio) aparece e Colombina (Nedda) está com o seu amante que foge pela janela. Ela grita “Eu sempre serei sua“. Canio então abandona o personagem e exclama “Pelo amor de Deus! Essas palavras de novo” e então a peça entra numa espiral descendente vertiginosa. Canio demanda novamente saber o nome do amante de Nedda e ela responde usando “Pagliaccio” em lugar do seu nome para alertar Canio de que estão na presença do público.

Canio então confessa que a face dele esta branca mas que não é pela maquiagem de palhaço e sim pela vergonha que ela lhe trouxe. O público nesse momento está totalmente comovido achando a “atuação” sensacional e carregada de emoção. Mas não era atuação, era real e eles não sabiam.

Nedda continuando seu papel diz que nunca vai dizer o nome do seu amante. Canio se enfurece e pega uma faça de cima da mesa. Nesse momento o público se da conta de que é real. Canio apunhala Nedda que grita “Silvio me ajuda!“, revelando o nome do amante. Silvio aparece e Canio o mata também. Diante do público horrorizado pela cena Canio diz a sua última frase:

La commedia è finita! – “A comedia terminou!”

Cena do filme

Assim como a opera, a cena é trágica. Que o diretor tenha colocado exatamente essa ária implica que queria carregar a cena com toda a carga emocional do Pagliacci que deve fazer rir a audiência enquanto chora por dentro. O paralelo entre a morte de Malone (Sean Connery) e Al Capone (Robert De Niro) é bem contrastante. Al Capone estava chorando com a opera mas ri por um instante ao saber da noticia da morte de Malone para depois continuar a chorar.

Capone é um palhaço, mas não no sentido da opera claro, é um palhaço da mídia da época e uma estrela da opinião publica. Capone ri da dor da perda de Ness e da morte de Malone. Eliot Ness (Kevin Costner) chora a morte do seu amigo e colega. Pagliacci é uma combinação da atuação de Robert De Niro e de Kevin Costner. A morte de Malone é o catalizador disso tudo assim como a traição de Nedda.

Para finalizar a cena, Malone já morrendo diz para Ness, “Até aonde você esta disposto a chegar?“. Essa frase é uma cobrança para Ness que o tortura ainda mais e motiva o final do filme.

Mais um exemplo de como a música erudita pode ser tão boa em acompanhar uma cena na qual mal há diálogos mas que fala e muito a quem está assistindo.

Vesti La Giubba

Recitar! Mentre preso dal delirio
Non so più quel che dico e quel che faccio!
Eppure è d’uopo sforzati!
Bah, seti tu forse un uom?

Tu sei pagliaccio!

Vesti la giubba e la faccia infarina
La gente paga e rider vuole qua

E se arelcchin t’invola colombina
Ridi, pagliaccio e ognun applaudirà!
Tramuta in lazzi lo spasmo ed il pianto
In una smorfia il singhiozzo e ‘l dolor

Ridi, pagliaccio, sul tuo amore infranto
Ridi del duol che t’avvelena il cor!

Vista A Fantasia

Atuar! Enquanto estou preso pelo delírio
Não sei mais o que digo e o que faço!
Embora seja preciso que se esforce!
Bah, por acaso és um homem?

Tu és palhaço

Vista a fantasia e pinte a cara
As pessoas pagam,e querem rir

E se arlequim te rouba a colombina
Ria, palhaço, e todos aplaudirão!
Transformas em pantomimas o riso e o pranto
Em uma metamorfose o soluço e a dor

Ria, palhaço, sobre o teu amor destroçado
Ria da dor que te envenena o coração!

Nos Simpsons

No filme

A aria cantada pelo grande Pavarotti


Fontes

https://www.letras.mus.br/luciano-pavarotti/85729/traducao.html
https://www.wikiwand.com/pt/Os_Intoc%C3%A1veis
https://www.wikiwand.com/en/Vesti_la_giubba
https://www.wikiwand.com/en/Pagliacci

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